quinta-feira, 23 de setembro de 2021

Primeiro contato com a Medicina da Floresta Ayahuasca.

Meu nome neste plano terreno é Thiago Silveira Brand, venho de uma família de tradição cristã, não conheço indícios ou evidencias do envolvimento de meus familiares com as culturas indígenas. Apenas a intuição de que meu avô materno possuía traços e características que lembram a ancestralidade tribal, porem sei que há pouco contato com questões espirituais por parte deles, “meus familiares”.

Sobre este relato, esta experiência, a qual vou escrever, sinto que devo situa-los, para melhor entender um pouco sobre a minha caminhada e meu Renascer pela força da Ayahuasca.

Sou Natural de Joinville, nascido e criado no Bairro Boa Vista, uma região atualmente muito bem desenvolvida. Na minha infância reinavam os campos alagadiços de mangue, banhados pela região da Bahia da Babitonga. Quando criança, costumava brincar e tomar banho de rio. Os tempos mudaram e as lembranças maravilhosas da infância trazem um clima de nostalgia agradável.

Contudo estas lembranças me fazem entrar em contato com a natureza e com a espiritualidade. Uma lembrança forte que possuo, é que, quando criança, em uma noite quente de verão tive uma visão que marcou minha vida e minha infância. 

Devia ter 4 anos, lembro de forma fragmentada que naquela noite, sai de casa de minha avó, ela possuía muitos netos para cuidar, eram outros tempos. Em minha memória, lembro que via minha mãe de costas caminhando em direção ao rio, e eu incansavelmente tentava persegui-la, chamando e chamando e ela cada vez que eu me aproximava, seguia para mais próximo do rio. Lembro dos detalhes das suas lindas vestimentas, de seu longo cabelo escuro, seu vestido azul contrastava sob seus lindos cabelos escuros. Naquela noite quando estava quase chegando à beira do rio para buscar minha mãe, fui surpreendido por meu pai, assustado com a situação, de ver seu filho de 4 anos prestes a entrar na escuridão rio adentro, me puxou agressivamente. Me lembro de gritar muito pois queria ir atrás de minha mãe, que na minha visão de criança estava dentro do rio envolvida na escuridão. Meu pai me protegeu como um pai protege sua cria. Eu me lembro de chorar muito pois queria estar com ela em seus braços e na visão de menino naquela noite entendia que minha mãe estava lá dentro da escuridão do rio envolvida pela noite.

Essa é uma lembrança muito marcante em minha vida, me lembro destes detalhes e esta lembrança eu carrego comigo. Depois desta visão de criança não tive mais momentos assim, talvez pelo trauma causado pela surra que tomei de meu pai devido a situação de risco que para ele representava. Amo meus pais e entendo que ele só estava me protegendo, não o culpo, pois ele estava tentando fazer seu papel de pai. Pois hoje sempre que conversamos lembramos desta história.         

Bom esse foi um de meus fragmentos de memória de minha infância da qual tenho um grande carinho. Quando adolescente minhas memórias são carregadas de sonhos onde furações e vendavais pareciam me perseguir durante a noite. Na minha adolescência eu sonhava muito com desastres naturais, furacões, tempestades e monstros noturnos que apareciam em meus sonhos.

Lembro também e gosto muito dessa lembrança, ainda na adolescência adorava ouvir o canto noturno de uma coruja que nos visitava a noite, ela se postava em um poste perto da casa onde morávamos. Ela aparecia com frequência por um período do qual eu estava no ensino fundamental. Ela aparecia para caçar animais pequenos, lembro que protegíamos nossos cães e gatos que tínhamos pois sabíamos de sua habilidade e ferocidade de caça a noite. Porem mesmo assim adorava ouvir seu canto noturno que anunciava sua presença.

Depois que atingi a fase adulta, os sonhos e pesadelos cessaram um pouco, devido aos descuidos e da inexperiência e maus tratos que tive no inicio desta fase. 

Desde a 5° série do ensino fundamental pensava e desejava me tornar professor de história, com o passar dos anos lutei e batalhei bastante para estudar e lutar pelos meus sonhos. Consegui através de muito esforço concluir a faculdade de História, me tornei um Professor. Ainda estou estudando para me qualificar ainda mais, pois amo o que faço, amo ser um educador.

Vejo nas crianças, seres de luz, e isso me alegra, pois me coloco em uma posição de educador mais sensível ao cuidado com estes jovens. Essa sensibilidade que estou sentindo desde 06 de setembro de 2020 está sendo muito significativa. Entendo que é um processo muito valoroso e significativo, meu coração se enche de luz quando penso em meu trabalho.   

O que me trouxe ao primeiro contato com as medicinas foi toda dor e sofrimento causado pelo fim de um ciclo, o fim de meu casamento. Hoje sou muito grato a tudo que aconteceu. Fui casado com uma pessoa maravilhosa a 5 anos nos conhecíamos a 13, lembro que nos últimos três anos antes do rompimento não sentíamos mais amor um pelo outro. Decidimos juntos enfrentar as adversidades, mas não conseguimos. A decisão de término não partiu de mim. Hoje estou em processo de cura, deste ciclo que se encerrou. 

Nesse tempo de redescobertas dentro do meu processo de cura interna, conheci a Artista, Professora, Mãe dedicada, Mulher carinhosa e atenciosa, uma pessoa extraordinária, Andréia Schmitz, que se tornou uma grande amiga, uma pessoa iluminada em minha vida. E foi por intermédio dela que conheci o grupo Sol de Gaia que abriu as portas pra mim, são pessoas maravilhosas que amo muito.

Meu processo de cura e luto pelo Divórcio é parecido com o de Andréia, nossas dores são semelhantes, por conta disso, acabamos ficando muito próximos. Eu sou muito grato a isso e a amo, pois do contrário não imagino como seria ou se haveria contato com a medicina da floresta, ou se teria a oportunidade de conhecer o grupo Sol de Gaia. Sou muito grato a tudo.

A exatos 3 dias antes de ocorrer a Cerimônia liderada pela pessoa iluminada, líder tribal, um mestre da medicina da floresta chamado Môcha, eu já estava me preparando. Ainda não sabia se deveria participar, contudo no dia 03 de setembro decidi que deveria entrar neste processo de cura. Para aceitar minha condição e seguir em frente em minha vida.

Confesso que meu coração estava carregado de dores e de angustias. Muito sofrimento e tristeza habitava o meu ser. Fui para a cerimônia bastante emocionado, me segurando, pois sabia que seria muito emocionante e libertador. Quem me auxiliou para ir preparado para aceitar e não resistir ou tentar lutar contra a cura foi a pessoa que hoje tem um lugar especial em meu coração, pessoa que também considero como iluminada, uma mulher fortíssima, uma amiga querida que me é um amor especial e que envolveu meu coração. E que aliás, posso dizer que me ensinou a ressignificar o amor.

No dia 06, dia da cerimônia, passei a tarde com uma grande amiga, fizemos uma oração para que eu fosse tranquilo e protegido, choramos juntos, foi uma tarde de preparação muito linda. Que aliás me emociona muito ao lembrar. As 17 horas de sabado iniciei minha preparação organizando minhas coisas, como mochila, cobertores, cadeira de praia, pote, equipamento de higiene pessoal. Levei um pão de milho e uma manta para dar de presente para Môcha, a pedido de minha mãe. 

Para ir, conheci o casal Amarildo e Dayane que me acolheram me buscando em casa e depois me levando em casa. Sou muito grato a eles, são um casal iluminado.

Quando cheguei lá, não conhecia ninguém somente a Lilian e seu companheiro Roni, que logo busquei cumprimenta-los. Mesmo assim me senti um animal acuado, enjaulado, sozinho e com muito medo. Meu coração palpitava de emoção e uma profunda angustia e tristeza. A única coisa que eu sabia é que deveria estar lá, que seria um momento único em minha vida. 

Antes de iniciar a cerimonial, todos os participantes fizeram pinturas no rosto, minha pintura foi a coruja, meus olhos encontraram os olhos dele, e como num piscar de olhos, sem hesitação recebi a imagem da coruja desenhada em meu rosto, em um breve momento questionei, estranhei não entendendo o que estaria por vir, fiquei um pouco assustado, não sabia por qual motivo receberia tal pintura em meu rosto. O único sentido que fazia, era sobre minha profissão de professor, tal pensamento me deixou tranquilo, inquieto mas tranquilo.  


Quando teve início a cerimônia, a primeira dose de Ayahuasca me fez ver mandalas de geometria sagrada. Deus se apresentou para mim na figura de Buda, como em um mosaico de ouro.

Os cânticos tribais e os tambores junto ao efeito da Ayahuasca me colocaram em uma sintonia divina, ali eu pude perceber o divino. Foi uma experiência gratificante. Eu nunca imaginada que seria digno de receber tais visões.

Porem quando houve um intervalo em meus sentidos fui tentado a ir próximo ao fogo, lá eu tive a sensação de estar me transformando em uma ave, uma coruja, arranhei a terra como se tivesse garras. Encontrei uma folha seca na terra e coloque entre meus olhos, enxerguei o fogo através da folha. Naquele momento eu sorria como se estivesse me encontrando com a animalidade.

Logo que a segunda dose da medicina foi anunciada eu me coloquei na fila para receber, tomei e fui sentar em minha cadeira. Quando os cânticos iniciaram, minha respiração passou a ser mais ofegante, não consegui controlar. Me apavorei, coloquei tudo pra fora, vi um liquido vermelho saindo de dentro de mim. Fiquei apavorado, meu coração disparou como se fosse ter um infarto. Foi quando fugi para longe, fui para o outro galpão onde haviam bancos e uma luz muito forte, lembro de ter deitado no banco e lembro de ter visto a imagem de uma coruja morta, toda desfigurada, machucada, toda depenada. Era eu em posição fetal. Foi quando os tambores entraram dentro de meu peito, dentro de meu coração. Eu senti um sopro de Energia e Luz dentro de mim.

Eu havia renascido naquele momento, como um sopro de vida. Ao renascer estiquei minha mão em direção a luz da lâmpada como se a luz me incomodasse e me perturbasse. Levantei cambaleando, apaguei todas as luzes, me entreguei para o conforto da escuridão, mas os tambores me perseguiram, entraram novamente em minha cabeça, aqueceram meu coração. Tive naquele momento a sensação de que o individuo "Eu" tinha também morrido e que outro Thiago havia renascido na força da ayahuasca veio para ficar, renascendo. Quando me percebi assim. Eu já não me sentia mais sozinho, agradeci, chorei muito sozinho naquela parte escura, passei a noite toda chorando, sozinho, agradecendo, envolvido na pelas musicas.

Lá do lugar onde fui, fora do circulo,  comecei a ouvi uma voz surgindo ao fundo chamando meu nome, a princípio pensei de início que era minha consciência me chamando, ignorei, porem a voz me chamando foi ficando cada vez mais perto, eu respondi a voz com um “Oi” depois disso a voz me achou, era meu guardião, um dos protetores de luz, era o taxi Rafael, quando percebeu que eu não estava mais na roda, saiu atrás de mim, eu o percebi como um protetor, quando ele se aproximou de mim eu chorei e disse que tinha renascido e disse a ele que ele era um protetor, fechei meus olhos e toquei seu rosto com minhas mãos, agradeci. Em seguida levantei com sua ajuda, cambaleando um pouco, frágil e me sentindo muito fraco voltei para a cerimônia. Fiquei no lugar que Rafael tinha escolhido e ajeitado para si, agradeci e ali no canto esquerdo de frente para os tambores entrei em um transe profundo, agradeci por ter renascido, senti o totem da coruja em mim. Pedi ao Rafael que buscasse minha mochila e minha almofada pois precisava de água, precisava me recolher. Depois de toda a ajuda ganha pelo protetor, eu me abracei a almofada, senti o cheiro e a presença de minha amada amiga em mim, ai então eu entendi tudo o que ela me dizia um dia antes sobre curar a dor do luto que havia em mim. Foi mais um momento de clareza, foi quando eu chorei bastante e agradeci em voz alta, dizendo Gratidão, agora entendo o que você me disse, Gratidão, eu também preciso me curar. Gratidão, eu confio, Eu aceito, Eu perdoo, Eu te amo. Eu descobri que realmente amo você, mas entendi que preciso também curar meu luto. Logo após repetir várias vezes esta prece, abracei a sua almofada, pude sentir seu cheiro, e um escudo de cristal se fez diante de mim, como um mosaico branco com detalhes vermelhos e azuis. Chorei muito a partir dessa sensação. Os tambores ecoavam em minha alma e os cânticos alimentavam meu ser.   

Houve outro intervalo, tirei forças de onde não tinha, me arrastei em direção a Mocha, toquei em sua mão, a beijei, segurei em seu pescoço encostando minha testa na dele e chorei afirmando – Gratidão, eu renasci, gratidão, dei um beijo em sua testa e voltei me arrastando como uma ave machucada para o canto onde estava sentado. Quando o Rafael apareceu novamente, eu me enchi de felicidade e contei para ele o que tinha feito, foi uma sensação que encheu meu coração de luz. Em seguida vi Rafael dar um forte abraço em Mocha, foi um momento de muita luz.  

Parei na segunda dose, entendi que era meu limite, percebi que havia ficado muito debilitado, chorei a noite toda. Quando raiou o dia houve o momento de reflexão em grupo, senti uma emoção muito forte. Chorei muito, ouvindo os irmãos fazerem seus depoimentos, senti que chegou minha vez de falar, não consegui segurar minhas emoções, foi libertador, agradeci pela cerimônia, disse que antes da cerimônia já havia pesquisado sobre cultura indígena, mas não entendia o que era. Me apresentei e disse que era a minha primeira vez, lembro de ter dito que quando cheguei para a cerimônia, que meu coração estava cheio de dor e de sofrimento. E que durante a cerimônia eu havia morrido e que havia renascido para a luz, agradeci a todos, fiquei muito emocionado. Chorei bastante, abracei as pessoas, alguns dos irmãos me deram parabéns, fui aos prantos, chorei bastante. As irmãs me abraçaram, chorei mais ainda. Quando dei um abraço na Lilian foi outro momento bem emocionante, senti uma luz enorme quando ouvi em suas palavras – Bem vindo a tribo irmão, ali eu me senti abraçado, acolhido e renascido. Senti uma emoção muito forte. Depois disso outros irmãos e irmãs me abraçaram, foram momentos maravilhosos, de muita luz e emoção.

Nesse momento as pessoas já começavam a se despedir e ir embora, o dia já estava claro, foi quando arrumei minhas coisas e entreguei uma manta para Môcha e disse eu era um presente que minha mãe tinha enviado a ele, ele sorriu e ficou muito feliz. Pude trocar umas palavras com o líder Mocha, disse a ele que seu trabalho é de muita luz, agradeci imensamente a oportunidade de estar ali. Ele prontamente sorriu e já me disse do dia 18 que haveria outra cerimônia, disse então que seria uma honra porem a partir de então eu entraria em um momento de auto reflexão. Agradeci, me despedi junto com o casal de irmãos Amarildo e Dayane e partimos embora para Casa.

Voltamos conversando, contei a minha versão da cerimonia ara eles. Me senti iluminado, voltamos ouvindo cânticos tribais no carro, era como se ainda estivesse acontecendo em meu coração.

Quando me levaram em casa e chegamos na frente do prédio que estou morando, Dayane disse, olha ali, ontem tinha um rapaz sentado ali esperando, eu logo retruquei, - Aquela era uma versão de mim mesma que se foi, morreu lá durante a cerimônia. Me despedi bastante emocionado, cansado e um pouco desnorteado, lembro de ter dito palavras de Gratidão ao txai Amarildo, que ficasse bem e que tivesse um bom domingo, Amarildo logo me questionou dizendo que já estávamos na terça, eu logo disse quase rindo, - Nossa estou meio perdido. Nisso Amarildo me chamou novamente atenção apontando para o nome do prédio onde estou morando me falou, - Thiago, me responda, qual é o nome que está ali. Eu olhei para o nome, estava escrito "Porto Seguro". De fato, voltei ao meu porto seguro. O meu ninho. A casa de meus pais. Gratidão Amarildo e Dayane.  

Gratidão querida amiga, te amo muito Andréia Schmitz. Gratidão aos amigos, Rafael Caetano, Lilian e Rone, Rafael Sdrigotti, Bruno Caetano, Mocha Noke Cuin e família do povo da onça, Amarildo e Dayane, Mariana, Roger, Nilton, Jessica, Carol, Tia Dalva, Seu Luiz e os outros txais que estavam presentes nesta cerimonia Gratidão a todos os irmão e Irmãs que lá estavam.

Gratidão Eterna.

Observo com os olhos e a sabedoria da Coruja e sinto a lealdade do Lobo e seu espirito proteção. 

Primeiro contato com a Medicina da Floresta Ayahuasca.

Meu nome neste plano terreno é Thiago Silveira Brand, venho de uma família de tradição cristã, não conheço indícios ou evidencias do envolvi...